Mais uma vez relembro toda minha vida, tudo que eu fiz que porventura, hoje posso considerar errado. Releio as cartas, mas não com carinho. Sinto um desejo fulminante de rasgá-las, pô-las fogo. Queimar lembranças, incendiar pessoas, matar a mim mesma exclusa em chamas. Quero apenas sentir o gosto do belo novamente, sentir prazer ao leve toque do vento em meu rosto. Sinto falta novamente de olhar o mundo com os olhos de uma criança que acabara de nascer. Quero o verso altivo, quero o olhar terno, quero deleitar-me de amor e sucumbir-me em ódio, qualquer coisa que me faça sentir viva ou que pelo menos, me faça sentir algo. "Hoje a tristeza não é passageira", mas quando ela resolver sair e descansar do meu corpo decrépito e fatídico retornará a mim com mais intensidade do que quando fora embora, pois quando ela se distancia é que cria mais forças para continuar em mim. Estou farta dos infortúnios diários, farta das pessoas que me dão conselhos inúteis, farta de acordar e sentir o beijo do sol, farta de você, farta de mim e de qualquer outra coisa que me faça caber em mim, que me mostre verdadeiramente quem sou e o que devo fazer. Não sei o que fazer e creio que no momento, nem o quero. Fecharei minha boca para os beijos vazios, fecharei meus olhos para os corpos lascivos que me chamam ao doce pecado da carne, taparei meus ouvidos as palavras intempestivas de conforto que de nada me cabem. Fecharei-me para o mundo e do mundo me servirei.